* Everton Soares Cosme, 20 anos, é natural de Rio Grande/RS e estuda Artes visuais na FURG.
Imensidão
Meu jardim de ervas daninhas
Arranha tua pela imaculada,
Mas mesmo assim insistente caminhas
Até o átrio de minha morada
Que força é essa que te impele
Para o calor dos meus braços
E singela posas, nua em pele,
Para que eu desenhe teus sinuosos traços
E minha mão corre solta
Para o retrato do instante completo
Nas belas madeixas te encontras revolta
E logo esqueço do que escrevo, do desafeto.
Essa energia fatal me envolve,
Momento mágico, causa nos olhos rodopios
Devaneios oníricos minha mente promove
Meu corpo é atacado por arrepios.
E a cada instante o delírio aumenta
O envolvimento corpóreo é pleno
E tu, a libido fomenta
Em mim, que era calmo e sereno.
Me perco em ti, mar de prazer
Doce insânia que me faz sonhar,
Anestesia cada parte do meu ser,
A locais surreais, me faz viajar.
A esse doce veneno vou me entregar,
Confio em ti minha vida
No teu seio perfeito, vou repousar
Para apagar a dor, essa intensa ferida..
Réprobo
Só me restou o desamor, o desencanto
A dor sufocante que agora me acompanha,
E as lágrimas ardentes do meu pranto
Que o meu rosto sem piedade arranha
A chuva escorre calma pela janela
Como a criança que brinca livremente
Provando-me que a vida é bela,
Mostrando que o erro é meu, infelizmente.
Quisera agora ter um afago amigo
Para curar meu coração aflito
Livrar-me desse constante perigo
E dizer que o amor para mim não é restrito.
Resta-me agora essa angústia inquietante
Fruto de uma vida descartável
Aliada ao torpor alienante,
Tornando minha existência indesejável.
Desafeto
Vivo como o feto escarrado
Nas condições do mundo agreste
Em que não vive sequer a peste,
Sinto-me assim por nunca ter sido amado.
Por mim não pagam um tostão,
De certa forma até agradeço
Sei que por justiça não mereço
E aqui permaneço, com meu reprimido coração
Vítima fui de diversas dores
Com vinte anos recém completos,
Já vivi mais desafetos,
Que esses augustos e veneráveis senhores
Continuo então como aquele feto
Descartado no frio hostil.
Inútil!Vou tocando minha vida fútil
Assombrado pelo desafeto.
* Juliana Castro, natural de Rio Grande/RS, é aluna do curso de Artes Visuais.
A ausência permanente de algo que não sei
Sentimento este, que me corrói
Mas já não dói
Acostumei-me a estar só
Mesmo ao rodear-me de pessoas
Percorro pelo mundo a procura de um não saber
Descontextualizando-me nas desventuras mundanas de meu ser
Tenho aquilo que levo, e levo apenas aquilo que posso carregar
Meu bem mais precioso é o amor
Ganho de volta conhecimento mundano e experiência
Este não sentir crescente a cada dia
Que já não me causa mais tamanha estranheza
Preencho esta ausência
Incontestável com tesouros que guardo
Encontrados a cada esquina, a cada ponta de bar
Este vazio que sinto: são as dores do mundo!
IRREAL
TEDESEJAR...
OLHA PRA
ELE DE SALTO ...
ALTO E PERGUNTA...
POR QUE VOCÊ
ME OLHA
COM ESTES OLHOS?
-Você me quer me enlouquecer, mas sou eu que enlouqueço você!
Alisson Alfonso e Juliana Castro
Reflexos condicionados
Eis o que eu tenho com você
Reflexos condicionados
Porque quando você me toca
Eu ardo, eu queimo, desmaio
Porque quando você me beija
Eu choro, eu tremo, me molho
Porque quando você vai embora
Eu caio, eu saio, eu traio
Ah... você só me quer quando eu não posso
Você só me vê quando eu desfoco
Você só me procura quando esqueço
Eu daria minha vida outrora
Para que você não fosse embora
E mesmo assim você partiu
Voou para longe de mim
Meu pássaro negro, tão amado
Hoje entendo porque você fugiu!
* Michelle Vasconcelos Oliveira Nascimento, 27 anos, é natural da Terra do Sol (Natal/RN). Atualmente desenvolve tese na área da Literatura Comparada e ministra aulas de produção textual na FURG. Escreve desde 1999.
Último Suspiro
Nossos corpos mudos, sussurrantes
A se olharem, desejosos de um re-encontro.
Bocas travadas de fel
Tentam reviver os ternos
Beijos doces, perdidos
Em alguma lenda,
Antiga talvez.
Olhos a se olharem
Como se nunca tivessem se olhado,
Como se fosse a última vez.
Destino anunciado,
Sentido com a brisa fria
E trépida que agita os cabelos
E enrigece as espáduas,
Empalidecendo o rubro sorriso
de outrora.
Olhos a se procurarem,
como a procurar uma resposta no vazio,
infinito de um suspiro
força de uma paixão que fora,
que seria, que talvez...
Outono
Abro a janela, inspiro o ar gélido da madrugada
Mais uma vez o frio endurece meus ossos,
Faz tinir os dentes, petrifica o coração.
Luzes difusas na cidade mostram o vermelho do céu
Folhas caídas ao chão anunciam com a força
De um presságio o que está por vir.
Vir de onde? E para onde?
Folhas caídas a correr pelo chão,
Delineando moinhos de vento.
Poeira deitada, como corpos exaustos,
Vencidos, ao chão.
Sorrisos desistidos, bocas dadas aos beijos esquecidos
Tempo a preparar para o esquecimento final,
Esquecimento do cálido inverno d’alma
Folhas a deitarem na relva,
Onde outrora se deitavam os corpos em sonho,
Nas arejadas noites de verão.
À MARGEM DO TEJO
Nunca vi o Tejo, nem sei se o verei,
Tejo de águas profundas onde dormem almas
Apaixonadas, amortalhadas, almas de poetas
Que nunca poetizaram.
Nunca vi o Tejo, mas sim os teus olhos
Teus olhos, negros como suas águas à noite,
Mergulhados na escuridão do abismo lusitano
A separar nossos espíritos, meus desejos
Nunca vi o Tejo, mas em sua profundeza
Está a minha dor e em suas margens
Meus versos são desfeitos ao vento.
O Tejo abriga a minha alma amortalhada,
Alma de mais uma amante apaixonada
Amante de incerteza e amada de ninguém.
O Tejo, nunca o vi, os teus olhos sim, o vêem agora,
E na névoa que paira à margem, desenhas o rosto
De uma rapariga qualquer, de inocência desejada
E coração virgem...
Nunca vi o Tejo, mas à sua margem choro
a dor de não ser a tua rapariga desejada,
de não ter os teus olhos negros
negros profundos do Tejo.

* Raphael Maiquel Ribeiro Rickes, 25 anos, é natural de Porto Alegre/RS e atualmente trabalha no ramo de livros. Tem predileção por Pablo Neruda e Olavo Bilac.
“Que seja doce!”
Quando você acordar
e levemente abrir os olhos:
"Que seja doce!"
Quando você respirar,
trazendo paz ao seu interior:
"Que seja doce!"
Quando você dançar,
simplesmente por dançar:
"Que seja Doce!"
Quando você suspirar,
por uma nova paixão:
"Que seja doce!"
Quando você chorar,
para aliviar sua magoa:
"Que seja doce!"
Quando você gritar,
para espantar a raiva:
"Que seja doce!"
Cada momento em sua vida,
bom ou adverso:
"Que seja doce!"
Assim como o cacau,
que é tão doce quanto você.
VIVI
Você esta surpresa. Eu sei!
Talvez seja difícil desenterrar os mortos
em meio de pensamentos e emoções tão vivas.
Mas não posso deixar que meu coração permaneça enterrado vivo.
Não posso permitir ver o seu coração em coma e não fazer nada.
Quero usar todo o amor que sinto por ti
para desfibrilar o seu coração.
Quero ser a sua dose de adrenalina
para um suspiro libertador.
Desejo esse suspiro!
Esse e muitos outros suspiros;
de amor, alegria e prazer.
Ver seus lábios abrindo-se em um doce sorriso.
Ver seus sorrisos transformando-se em beijos.
Ver seus beijos conhecendo os meus.
Ter a chance de descobrir o teu corpo
e que você tenha de descobrir o meu.
Por isso, hoje resolvi desenterrar esses sentimentos
e revelar aos seus olhos, ouvidos e coração que ti amo.
Por isso... VIVI!
AS 17 HORAS
Às 17 horas seus olhos ficam mais brilhantes
e seu olhar mais leve e doce.
Às 17 horas seu rosto fica cansado
mas seu jeitinho infantil esconde e brinca com a fadiga.
Às 17 horas, seu sorriso fica sereno
e seus lábios molhados parecem clamar por beijos.
Às 17 horas sua roupa parece estar pesada
mas seu perfume continua a me encantar.
Às 17 horas você me tira o ar
enquanto morde o canto de sua boca.
Às 17 horas e sempre às 17 horas,
me apaixono por ti ... novamente!
* Rodrigo Cáceres Lopes (Rody Cáceres), 27 anos, é natural de Rio Grande/RS . Atualmente cursa Letras na FURG e trabalha no ramo de livros.
Medalhões
Eu tinha dois medalhões
amarrados em volta do meu pescoço
um chamava-se Drummond
e o outro chamava-se Pessoa.
Os dois juntos pesavam muito
e faziam minha coluna dobrar
até parecer um arco.
Por mais que tentasse
não conseguia livrar-me deles
até que um dia vi
meu amigo mais chegado
carregar um penduricalho
leve como uma pluma:
nesse adorno estava escrito seu próprio nome
e balançava em seu pescoço
cheio de leveza e graça.
Naquele momento descobri o segredo da vida e da poesia
rebatizei meus medalhões:
um passou a chamar-se "eu",
o outro passou a chamar-se "eu mesmo"
e a coluna voltou para o lugar
e a cabeça começou a funcionar.
No muro da frente da minha casa
pichei o primeiro mandamento da Bíblia modernista:
JOGUEM FORA OS MEDALHÕES.
E nunca mais tive problemas na coluna.
Como nos velhos tempos
Angariei um amor para toda vida
E uma boca desejosa de meus beijos
E um corpo aflito a espera de meu toque
E um coração forte contra meus malignos anseios.
Um amor tão leve quanto o vento
Isento de máculas e de pejos
Olhos profundos de um inefável brilho
Verdadeiro como nos velhos tempos.
Corri o mundo a todos os cantos atento
Adentrei palácios e paupérrimas casas de barro
Visitei vilas, aldeias, bairros e lugares ermos
Percorri todas as trilhas dessa terra
E sem sucesso retornei para meu reino.
Porém no final dessa jornada, eu já cabisbaixo e contrito
Encontrei uma serena alma em um corpo negro
Uma divindade de desconhecida formosura
A quem declarei sem medo:
- Daqui para a eternidade mulher, tu serás minha ventura.
Tu és a mística rosa negra
profetizada em meus sonhos febris
a alma livre e impetuosa
que livrar-me-ía de uma existência servil.
Anunciada fostes, ó diva cálida,
por Deus, em uma noite arrebatadora
enquanto meu corpo jazia em suor salíneo
e de minha mente emergia de um torpor maligno.
E ao caminhar perdido nesse cerne delírio
encontrei-te brilhando, ó visão surreal
como as Plêiades suspensas no universo abissal.
Trazias nas mãos a vida e o amor sincero
e entregaste-me tudo mais, o teu corpo astral
que tornou-se meu templo, meu Taj Mahal.
*Silvana Bronze, 23 anos, é natural de Rio Grande/RS e cursa Letras na FURG.
Poetar
Minha poesia é minha filosofia.
No entanto nunca quis ser poeta.
É através dela que penso a vida
Com a alma amadora completa.
Que por ela eu possa reinventar
A vida, a alegria, a dor e o amor.
Que meu verso leia meu leitor
E que com ele sempre possa estar.
Meus poemas não me pertencem,
Eles são mesmo de qualquer um
De forma que o poeta não deve
Valer mais do que poema algum.
Os versos que nunca termino
Permanecem na minha gaveta
Pacientes esperam um destino
Antes que deles me esqueça.
E da vida que ainda me resta,
Quando a morte vier me encontrar,
Se a fortuna me quiser coroar
Vão dizer que fui bom poeta.
Pequenino Amor
Aponto meu lápis com carinho,
Para num papel desenhar-te um versinho,
Neste instante que me encontro aqui sozinho.
-Não te espantes se não for tão bonitinho,
E nem de doce que é feito teu jeitinho.
-Dou-te com amor o meu versinho
Que componho a reclamar tua atenção,
Dessa sorte que só quero um pouquinho
Venha a mim aliviar meu coração.
-Nada tenho nesta vida para te dar,
Nem de lua é feito meu caminho.
Minha vida deve o amor que aqui pago,
Com afago
Que te pago com beijinhos.
ETNIA: Humano
Carrego comigo
todas as raças do mundo.
Carrego comigo,
não é difícil de ver.
Carrego comigo, juro,
bem lá no fundo,
todos os olhos,
todas as faces
e toda vontade
que agora decidi escrever.
Eu sou o mundo.
* Suellen Rubira(Freak), 27 anos, natural de Rio Grande, estudante de Letras na FURG, escreve desde 2006
Vira Páginas
Vira volta toda vida
Num redemoinho sem fim
Vai tempestade
Vai trovoada
Afastar toda a dor de mim
Não passo de um acaso
Um erro, jogado
Fracassado
Um indigente sem nome
Um morto, uma sombra
Um ninguém que na multidão some
O meu choro não cai
As lágrimas são de pedra
Chove chuva não
Chove treva
Chove tristeza nessa fria terra
Seca o coração
Volta a vida nessa roda viva
Eu vivo, caio, repito
Levanto e admito
Sou o fruto do espinho profundo
Que tanto me fez sofrer.
Nada ao Norte
A nuvem nada ao Norte
O nada nesse reino impera
Te olhar tem gosto de morte
Teu coração, é a minha quimera
Explorar sonhos vazios
Onde o brilho imenso se desfaz
Dedos débeis de toques frios
Nem doer, a solidão dói mais
Voa pássaro branco ao Norte
Aos caminhos jamais desvendados
Lanço a qualquer corpo a minha sorte
Estaciono o olhar no sorriso velado
Acabam-se os meios, acabam-se os fins
Golpeio o passado
Recorto o presente
Colo teu estereótipo em mim
Brilha lua branca no céu
Coisa única que brilha depois da realidade
Pensamentos mórbidos largados ao léu
Flutuando de um não sei o que sentir saudade
Encara assim as paredes mofadas
Encara em ti essa luta perdida
Encara que hoje és foto amarelada
Aceita que serás esquecida.
Falta de inspiração
Bato na porta de casa
Como a chuva bate no telhado
Insisto entrar num local proibido
Eu tenho medo dessas águas rasas
Finco a estaca no peito
A angústia ainda é morna
Matando a espera
Olho nos olhos de um ser maldito
Esquecer os espinhos, ah quem me dera!
Caminhos, desvios
Eternos labirintos internos
Só percorreria o abismo se fosse do avesso
Mas corro pelos becos
Com meus pedaços enfermos
Toca música onde baila a inspiração
Dança girando pra longe da luz
Dança cruzando a fronteira da escuridão
Rodopia me lançando à cruz
Suporta esses versos tímidos
Cabisbaixos, rimas fracas, sem mistério
Assume que nada tens de vívido nem vivido
Te recai a culpa do escrever inútil
Do talento que parece estar por agora perdido.